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20 de mar. de 2010

Violência sexual (By Regina Navarro)

Regina Navarro Lins  mais ou menos 35 anos, quando a Barra da Tijuca era ainda meio desabitada, não faltavam advertências para que as moças recusassem qualquer convite para passear com o namorado por lá.  Além de ficar mal-faladas, as mães temiam que fossem alvo de uma ‘curra’, nome popular na época para o estupro por mais de um homem.  Principalmente depois do famoso caso “Aída Curi”, a jovem que, na luta para se livrar de seus agressores sexuais, despencou de um terraço da Av. Atlântica, em Copacabana. O tempo passou, a repressão sexual diminuiu, mas o estupro, a violência sexual mais comum, é o crime que mais aumenta nos Estados Unidos. A cada seis minutos uma mulher é estuprada e o FBI estima que, caso essa tendência prossiga, uma em cada quatro mulheres será violentada uma vez na vida.

              Desde que o sistema patriarcal se instalou, há 5000 anos, e a sociedade de parceria entre homens e mulheres cedeu lugar à dominação masculina, a mulher passou a ser uma mercadoria valiosa. Rapto seguido de estupro foi o método mais usado de adquiri-la, ocorrendo na própria tribo ou na tribo vizinha. Isso era visto como tão natural, que muitos atribuem ser a origem do costume de o noivo carregar a noiva no colo e pronunciar o célebre ‘enfim sós’, quando se vêem longe de todos, após a festa de casamento. Em toda a História encontramos casos de violência sexual: da Bíblia às guerras do século XX, passando pela  mitologia greco-romana, com a descrição dos 17 raptos praticados por Zeus, o deus dos deuses, e pela Idade Média. Uma das lendas mais conhecidas é a das mulheres sabinas, que durante uma festa foram raptadas e levadas para Roma para serem estupradas pelos súditos de Rômulo. Só que quando os sabinos investiram contra os romanos para recapturá-las, elas se sentaram entre os combatentes, não permitindo que seus pais e irmãos matassem seus maridos.
              Atualmente a violência sexual, principalmente contra mulheres, continua em toda parte. Em alguns países islâmicos fundamentalistas como o Irã, onde uma virgem não pode ser condenada à morte por ser propriedade masculina valiosa, as jovens são rotineiramente estupradas antes de serem mortas. Isso sem falar no costume mulçumano, adotado em alguns lugares da África e do Oriente Médio, de extirpar o clitóris de todas as mulheres para impedi-las de experimentar o prazer sexual.
              Sem dúvida, há muito tempo as mulheres têm sido alvo das agressões dos homens. E mesmo quando vítimas, não faltam acusações de que sua sensualidade é a responsável pelos ataques sexuais. Mas qual é o motivo de tanta violência? Para alguns autores, como o americano Jamake Highwater, a agressão de homens  a mulheres se baseia em uma mentalidade que representa a desilusão da sociedade de consumo americana no final do século 20. Ela seria provocada pela sensação de inutilidade, vinda do tédio, da pobreza, da ignorância, aliada ao constante bombardeamento de mensagens de opulência, triunfos sexuais, riqueza e poder.
              Os estupros são raros nas sociedades em que a relação entre os sexos tende à igualdade, as mulheres são respeitadas e desempenham importante papel nas decisões coletivas. Homens e mulheres têm as mesmas necessidades emocionais, mas o ideal masculino das sociedades patriarcais não permite aos homens satisfazer essas necessidades. Estudos mostram que os esforços exigidos dos homens para se adequar ao ideal masculino provocam angústia, dificuldades afetivas, medo do fracasso e comportamentos compensatórios potencialmente perigosos e destruidores.
              As mentalidades estão mudando; muitos homens já compreenderam que a virilidade tradicional é bastante arriscada e cada vez mais aceitam que atitudes e comportamentos sempre rotulados como femininos são necessários para o desenvolvimento de seres humanos. Tanto que numa pesquisa feita por uma revista americana com 28 mil leitores sobre masculinidade, a maioria deles respondeu que queriam ser mais calorosos, mais doces, mais amantes e que desprezavam a agressividade, a competição e as conquistas sexuais. Ao que tudo indica, o fim da violência sexual está diretamente relacionado ao fim da ideologia de dominação e ao retorno da relação de parceria entre homens e mulheres.

O declínio do amor romântico (By Regina Navarro Lins)

Uma história popular relata o caso de uma jovem que desejava muito viver uma relação de amor e então deixou um bilhete num local onde seria fácil de ser encontrado. A mensagem era a seguinte: “A quem encontrar este bilhete: eu te amo.” Parece improvável? Mas é isso mesmo o que acontece por aí, só que de forma mais sutil. Na verdade, não faz muita diferença quem encontre o bilhete. Quantas vezes ouvimos a descrição do parceiro amoroso de alguém como sendo uma pessoa maravilhosa, bonita, inteligente e quando somos apresentados a ela levamos um choque? 
O amor romântico não é construído na relação com a pessoa real, mas sobre a imagem que se faz dela, trazendo a ilusão de amor verdadeiro. Deseja-se tanto vivê-lo que, quando alguém o critica, provoca grande desapontamento. Não é para menos. Nada pode unir tanto duas pessoas como a fusão romântica. A questão é que, por mais encantamento e exaltação que cause num primeiro momento, ela se torna opressiva por se opor à nossa individualidade.
Vivemos um período de grandes transformações no mundo, e, no que diz respeito ao amor, o dilema atual se situa entre o desejo de simbiose com o parceiro e o desejo de liberdade. É inegável que a fusão proposta pelo amor romântico é extremamente sedutora. Que remédio melhor para o nosso desamparo do que a sensação de nos completarmos na relação com outra pessoa?
No entanto, quando alguém alcança um estágio de desenvolvimento pessoal em que descobre o prazer de estar sozinho, se dá conta de uma profunda mudança interna. Preservar a própria individualidade passa a ser fundamental, e a idéia básica de fusão do amor romântico, em que os dois se tornam um só, deixa de ser atraente. Quanto à possibilidade de as pessoas alcançarem essa independência, existe certo pessimismo, alimentado pela crença de que o desejo de fusão com o outro está arraigado aos nossos ideais. Não participo muito dessa convicção.
O terapeuta e escritor Roberto Freire afirma em um dos seus livros que lhe custou muita dor, solidão e desespero aprender que sentir amor era uma potencialidade vital sua, produção criativa própria, e que para amar dependia apenas dele mesmo. A expressão e comunicação do seu amor eram produtos da liberdade pessoal e social conquistada. “Em minha inocência e ignorância, eu atribuía a algumas pessoas o poder de liberar, produzir, fazer exercer-se e se comunicar o amor em mim e de mim. Esse amor pertencia, pois, exclusivamente a essas pessoas, ficando eu delas dependente para sempre. Se, por alguma razão, me deixassem ou não quisessem produzi-lo em mim, eu secava de amor e — o que é pior — ficava em seu lugar, na pessoa e no corpo, uma sangrenta ferida, como a de uma amputação, que não cicatrizaria jamais.”
Por enquanto, não há dúvida de que desejar viver relações de amor fora do modelo romântico pode ser frustrante. As pessoas são viciadas nesse tipo de amor e fica difícil encontrar parceiros que já tenham se libertado dele. Mas acredito ser apenas uma questão de tempo. As mudanças são lentas e graduais, mas definitivas, nesse caso. Para quem imagina que vai perder alguma coisa ao desistir do amor romântico, Bonnie Kreps, cineasta canadense que escreveu um livro sobre o assunto, é animadora.
Ela diz que deixar o hábito de “apaixonar-se loucamente” para a novidade de entrar num tipo de amor sem projeções e idealizações também tem sua própria excitação. É a mesma sensação de utilizar novos músculos, que sempre tivemos, mas nunca usamos por causa de nosso modo de vida. Entretanto, ao começar a utilizá-los podemos fazer com nosso corpo coisas que antes nunca conseguimos. Para ela, os músculos psicológicos também existem e devemos olhar através da camuflagem do mito do amor romântico a fim de encontrá-los — e, então, ver com o que se parecerá o amor quando mais pessoas começarem a flexioná-los.
Quem sabe não teremos grandes surpresas?
Querida Regina, tomei a liberdade postar aqui o seu texto... Sei muito bem o que é um amor romântico... Normalmente, ama-se sozinha, não há uma troca e a pessoa tenta a todo custo proteger este sentimento, pois, amar de modo geral faz muito bem pra alma... Mas... e aí???? Chega uma hora - a minha hora demorou anos pra chegar - que o corpo começa adoecer.... Bom, o ique importa é que sarei né? Bjos.